Editor convidado
Editora executiva
A primeira edição da Revista Sur, publicada em janeiro de 2004, reproduz uma palestra realizada pelo diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello em fevereiro de 2003, poucos meses antes de sua trágica morte em Bagdá, no Iraque, onde servia como representante especial do então Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan. Em sua fala, Vieira de Mello elenca cinco grandes questões sobre direitos humanos para as quais dizia não ter resposta, mas que considerava críticas para o mundo naquele momento —entre elas, o terrorismo não estatal, a religião e os limites para a expansão dos direitos humanos.
Vinte anos depois, a Sur segue fiel à sua missão fundadora, bem exemplificada no exercício de Vieira de Mello naquela edição inaugural: interpelar o campo de direitos humanos com honestidade, compromisso e curiosidade crítica acerca das questões que, apesar de assumirem formas diversas em cada território, conectam a experiência de defesa dos direitos humanos no Sul Global. É com esse espírito que trabalhamos nesta edição comemorativa. Como se evidencia nas páginas que seguem, esse esforço foi renovado em suas formas e mecanismos. Além de trazer um novo projeto gráfico, a edição 33 foi a primeira feita integralmente por pessoas autoras convidadas, que generosamente compartilharam perspectivas teóricas, práticas e estratégicas que funcionam como valiosos feixes de luz em meio às sombras. Importante destacar que as perspectivas aqui compartilhadas são próprias de suas autoras e autores e não traduzem, obrigatoriamente, o entendimento institucional da Conectas Direitos Humanos ou das editoras.
Suas ideias se entrelaçam em um cenário compartilhado: a ascensão dos autoritarismos, com suas múltiplas formas e mecanismos, que se impõe como marco duradouro, com raízes cada vez mais profundas na sociedade e nas instituições, e demanda uma resposta vigorosa das organizações e movimentos sociais. Esse foi o tema que inspirou os debates ocorridos durante o Colóquio Internacional de Direitos Humanos de 2024, que encontram continuidade nos artigos, entrevistas e ensaios reunidos aqui.
Como se verá, há um chamado comum à ação que demanda, em grande medida, um resgate de um mandato elementar —aquilo que o defensor indonésio Haris Azhar, em sua entrevista, chama de “substância”. Um resgate que passa por encontrar caminhos através das imposições da burocracia, da institucionalidade e das estruturas de financiamento; que seja capaz de combinar a saudável exigência de profissionalismo e recursos com o tipo de esperança, proatividade e radicalismo que os tempos exigem. É assim que abordamos esse processo de “reencantamento”, valendo-nos da brilhante definição da filósofa e ativista Sueli Carneiro: com energia ardente e solidariedade inabalável.
Das lutas pela defesa de territórios tradicionais, passando pela emergência climática, a perseguição judicial de ativistas, as batalhas no campo digital e o genocídio em Gaza, a Revista revela um mosaico de realidades e perspectivas que refletem os modos de articulação entre os poderes estatais e corporativos em arranjos crescentemente autoritários. Ainda que em alguns casos imiscuídos em estruturas formalmente democráticas, fica nítido que esses arranjos se beneficiaram dos fracassos e da consequente perda de apoio popular do ideal democrático. A fotografia apresentada nesta Sur 33 também revela os impactos diferenciais desses autoritarismos nas populações historicamente vulnerabilizadas, assim como as afetações provocadas pelas políticas de desmonte do Estado de Direito nas agendas ambiental, indígena, feminista, de liberdade de expressão e protesto, para mencionar apenas algumas.
Além de um conjunto de seis artigos de autoras e autores da África do Sul, Argentina, Brasil, Palestina e Quênia, a Revista traz três entrevistas de fôlego com ativistas no Brasil, Indonésia e Egito; um ensaio inspirador, adaptado da fala proferida por Sueli Carneiro na abertura do Colóquio; e uma seção visual dedicada à memória de processos de resistência no Sul Global. Finalmente, por meio das palavras do professor e cofundador da Conectas, Oscar Vilhena, recuperamos a trajetória de Pedro Paulo Poppovic, idealizador e editor da Sur, a quem dedicamos esta edição da Revista.
A Sur 33 é fruto de um esforço coletivo e não teria sido possível sem a colaboração de organizações parceiras e financiadores e a diligente contribuição das seguintes pessoas: Carla Vreche, Carolina Diniz, Carolina Machado, Gabriel Sampaio, Jeferson Batista Silva, João Godoy, Juliana Miranda, Malak Poppovic, Morgana Damásio, Muriel Asseraf, Nadine Sherani Salsabila, Pedro Borges, Sherylle Dass e Vladimir Chorny.
Agradecemos especialmente a Camila Asano, diretora executiva da Conectas Direitos Humanos, e a Julia Mello Neiva e a Susana Barbery, diretora e assessora de Fortalecimento do Movimento de Direitos Humanos da organização, que lideraram o trabalho de produção da Revista com sensibilidade e compromisso.